>AS RUAS QUE FAZEM BARULHO.

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                                                       INFORMAÇÃO
José Francisco Perei­ra, no loteamento Rio Bonito, Tatuquara; e a Luís Kulla, no Santo Inácio, são vias públicas com algo em comum. Hoje, além dos nomes de “batismo”, também são conhecidas como “ruas da sirene”. Mo­­tivados pela insegurança, moradores resolveram instalar equipamentos sonoros em locais estratégicos. É unânime entre eles a eficácia do dispositivo, aliado, em al­­guns casos, às câmeras de vigilância. Resta am alguns casos a mobilização das comunidades, sem a qual o sistema pode não passar de uma substituição da polícia pela população.

A primeira rua a receber as sirenes foi a Neuza de Fátima Ferreira, no Pinheirinho, em 2008. Na ocasião, 36 moradores aderiram às tra­­quitanas. Atualmente, 60 residências dispõem dos equipamentos.
Sinal de alerta
O estado ausente
Para o sociólogo Lindomar Bonetti, da Pontifícia Universidade Católica (PUCPR), a busca por alternativas na segurança de uma comunidade significa um sintoma claro de que o estado não consegue cumprir seu papel. “É preocupante a instituição de uma organização social paralela”, garante o especialista. Em contrapartida, reforça, quando se fala em busca coletiva de uma solução, com a presença e respaldo do estado, há indícios de que estão sendo criados laços de solidariedade.
O responsável pela Delegacia de Furtos e Roubos de Curitiba, Silvan Rodney Pereira, vai além.
Se existe essa complementação na área de segurança é decorrente da deficiência de policiais e de falta de projetos modernos capazes de cobrir lacunas existentes no setor. “Medidas alternativas devem ser experimentadas na prática para diagnosticar resultados”. Mesmo não condenando a atitude da comunidade, o delegado ressalta que há o deslocamento do criminoso para outros lugares onde possa agir livremente.
O precursor foi o cabeleireiro Ronaldo Pereira Farias, 40 anos. Ele teve a ideia depois de uma conversa informal com os vizinhos. A rotina da rua era de duas invasões de casas por semana, pichações de muros e presença de dependentes químicos nas redondezas. “Quem manda na rua agora somos nós”, diz.
Segundo Farias, o sistema custa em torno de R$ 100. Graças a sua iniciativa, tem sido procurado por outros moradores para dar consultoria na instalação. Os clientes mais recentes vieram dos bairros do Xaxim e do Portão.
O morador argumenta que não basta dispor de sirenes e câmeras, é preciso criar um novo comportamento na comunidade, com práticas paralelas que auxiliem no combate à criminalidade. “A sirene é só um meio de chamar a atenção. O que importa realmente é a parceria entre os que vivem na rua”, co­­menta Farias.
Algumas dicas ajudam a comprometer as pessoas com o sistema, como a colocação do lixo so­­mente no dia de passagem dos ca­­minhões – garantindo a limpeza pública –, e o respeito ao horário das festas, que só podem durar até meia-noite. Mas não fica por aí. Em caso de doença ou acidente a sirene deve ser acionada para que os moradores possam ajudar quem precisa.
O benefício, garante Farias, não fica restrito somente à rua com sirenes. O entorno se beneficia com a redução de assaltos e com a inibição do tráfico de drogas.
O movimento da rua é gravado 24 horas. Graças a essa vigilância, Sérgio Barbosa de Farias, 32 anos, foi salvo de um assalto quando voltava de uma festa na madrugada. “Um simples telefonema do vizinho da frente me salvou”, conta ele. No caso de emergência, a orientação é que todos os moradores acionem a sirene e se comuniquem entre si, para que a polícia seja acionada. “Não podemos agir como polícia e nem temos a pretensão de que ela possa estar em todos os lugares”, argumenta.
União
A Rua Luís Kulla, no Santo Inácio, é o mais novo endereço do sistema. Há dois meses, três sirenes foram dispostas na rua e cada morador possui duas campainhas de acionamento. A proposta surgiu em uma reunião de moradores depois de alguns assaltos na região. Na época, o Seminário da Sagrada Família foi um dos locais assaltados. “É uma manifestação de que o perigo existe sim, mas queremos demonstrar que estamos unidos”, diz o padre Adriano Da Levedore, responsável pelo seminário.
O religioso lembra que, além da segurança garantida, uma das vitórias do projeto é o resgate da união dos moradores. “O objetivo não é fofocar, mas sim contribuir com o bem-estar coletivo”.

Poder público
Uma iniciativa da Secretaria Municipal de Defesa Social – Guarda Municipal de Curitiba, vai garantir, nos próximos meses, 57 câmeras monitoradas no bairro do Sítio cercado, instaladas em escolas, agências bancárias, pontos de ônibus, entre outros. Na sequência será a vez do Cajuru, um dos cinco com maior número de homicídios em Curitiba.
O lote do Sítio Cercado vem se somar às 116 câmaras já instaladas, levando para a região um modelo implantado anteriormente no Anel Central, em Ruas da Cidadania e em alguns parques de Curitiba. “A eficiência é total porque os marginais migram”, afirmou  o ex- secretário municipal da Defesa Social Marcus Vinicíus Michelotto, hoje em 2011 é  secretário estadual de segurança pública.

Em um futuro próximo, a expectativa é ter os equipamentos instalados em toda Curitiba, monitorados por uma central. Pela experiência, a criminalidade tende a cair em torno de 62% em áreas monitoradas.
Para Michelotto a participação da população na criação de mecanismos que busquem a segurança é positiva. “A polícia não é onipresente. A segurança pública não é só responsabilidade do estado”, admite. Ele lembra que 90% dos crimes são resolvidos através do envolvimento população.
Vizinhos se aproximam para inibir criminalidade
Há quem acredite que a boa convivência com vizinhos, sem recorrer a câmeras e outros equipamentos eletrônicos, também seja uma alternativa satisfatória. A aproximação pessoal e a orientação de conceitos de cidadania foram as apostas de um morador da Rua Azis Surugi, no bairro Boqueirão, em Curitiba. A iniciativa conhecida como Vizinhança, criada e implantada há seis meses pelo capitão Alexandre Bruel Stange, da Polícia Militar, é aceita por todas as 28 famílias moradoras do logradouro.
A primeira ação da comunidade foi estar mais presente em duas praças que ficam no fim da rua para fazer com que usuários de drogas deixassem de frequentar o local. A pintura de muros, o plantio de árvores e a manutenção de calçadas vieram na sequência, sempre com a ajuda dos moradores.
O método consiste na troca de telefones e e-mails, além do uso de apitos em casos de emergência. Se for à noite, os moradores foram orientados a acender as luzes de casa. Cinco emissões sonoras significam uma mensagem de socorro aos vizinhos próximos. “Atualmente, o número de assaltos no local zerou. Existe uma sensação de segurança e uma vigilância natural por parte dos moradores”, afirma Stange. Ele acredita que a segurança não se dá somente pela presença do aparato policial. A ideia de Stange já foi disseminada em ruas de outros bairros como Santa Felicidade e Hugo Lange.
A mobilização entre vizinhos também tem sido uma das formas de manter a segurança entre os moradores da Vila Rigoni, no Fazendinha. A ideia de trocar números de telefones surgiu na gestão do conselho de segurança (Conseg), em 2006, e, mesmo com a desativação do grupo, no ano passado, ela se mantém ativa entre as 200 famílias do local. Com isso, não foram mais registrados crimes. Antes era um assalto a cada noite, conforme o ex-presidente do Conseg, João Carlos de Lima. Nas reuniões, foi incentivada a comunicação entre os vizinhos e o uso do telefone 181, para fazer denúncias anônimas. “O resultado foi a dispersão dos traficantes, porque eles sabem que o pessoal está em alerta e tem controle da situação”, afirma Lima.
No Bairro Alto existe um programa similar desde 2003. Lá, o Conseg do bairro o chamou de Vizinho Solidário e, até o momento, tem sido divulgado boca-a-boca. Por enquanto, são duas ruas atendidas. Em outra, os moradores preferiram instalar um sistema sonoro. “Infelizmente, a comunidade não tem respondido como gostaríamos, ela só se preocupa quando o problema aparece”, afirma Marcos Murilo Holz­­man, presidente do Conseg. Na opinião dele, os problemas com a criminalidade começam com o álcool na infância, passam pelas drogas e o furto para manter o vício. “Hoje já passamos o patamar do suportável. Mas o círculo vicioso só vai ser resolvido quando conseguirmos pegar pela ponta”, acredita
Autor: Aline Peres
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